Novos tratamentos para dependentes de cocaína O consumo de cocaína, já considerado uma epidemia no Brasil, não pode ser enfrentado com um tratamento padrão. Esta é a constatação fundamental de uma extensa pesquisa feita por psiquiatras do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (Grea), da USP, que acaba de ser publicada no livro "Cocaína e crack, dos fundamentos ao tratamento" (Editora ArTmed).
Um dos coordenadores da pesquisa, o psiquiatra Marcos da Costa Leite, explica que os dependentes de cocaína são totalmente heterogêneos (sexo, idade e condição social bem distintos) e um modelo único de tratamento não corresponde às necessidades de cada paciente:
Uma das dificuldades de tratar o dependente de cocaína é que a maioria jamais procura tratamento. Segundo Costa Leite, alguns consomem a droga poucas vezes e depois abandonam o consumo; outros a consomem de vez em quando, sem apresentarem qualquer conseqüência adversa pelo uso da droga; outros, por problemas transitórios, abandonam o consumo:
O tratamento deve ser individual e simultaneamente em grupo, já que, a exemplo dos Alcoólicos Anônimos, as psicoterapias de grupo para dependentes de cocaína, crack (cocaína em pedras para fumar) e baque (injetável) mostraram-se extremamente eficazes para a identificação e a expressão de emoções dos dependentes. Mas é claro que este caminho enfrentará dificuldades.
Costa Leite e Antonio Carlos Justino Cabral apontam as principais dificuldades do tratamento: as expectativas irreais do paciente, que acredita ser o processo mais fácil do que parece; a manutenção do consumo da droga; as recaídas; e o próprio efeito químico da cocaína, que provoca intensas fissuras (desejo imediato de consumo acompanhado por forte ansiedade), que ocorrem ao longo do primeiro ano de abstinência total.
Os psiquiatras afirmam que a promoção da abstinência é o primeiro e fundamental passo para o tratamento. As regras para abstinência são parar imediatamente e de uma vez o consumo de cocaína, álcool, maconha ou qualquer outro estimulante que possa induzir ao consumo da cocaína. Depois, mudar de estilo de vida, de amigos e de ambientes onde o consumo de drogas seja o centro das atividades. Deve-se fugir de situações que causem fissuras.
- A taxa de recaída é alta, principalmente em pacientes internados, que sentem uma falsa sensação de segurança após um programa de prevenção bem estruturado - diz Costa Leite.
Os médicos da USP propõem, no entanto, uma nova avaliação das recaídas, que devem ser aceitáveis e compreendidas mais como um sinal de alerta do que como uma falha do tratamento. Os pesquisadores destróem vários mitos a respeito da recaída. Por exemplo, não é preciso, segundo eles, consumir a droga para estar em processo de recaída. Basta voltar aos velhos hábitos, aos amigos drogados, aos bares e às festas. Um revival dos velhos tempos já é uma recaída.
A recaída não é, tampouco, um sinal de pouca motivação e não anula os ganhos já conquistados pelo tratamento. Ela faz parte dos altos e baixos do tratamento e da própria vida. A recaída não é previsível, nem evitável, mas os médicos ensinam ao dependente como tentar fugir de seus estímulos. Segundo eles, o paciente deve detectar as situações de risco: estar num bar, cansado, triste ou nervoso é um sinal de alerta para mudar de ambiente e evitar o recurso à cocaína.
Costa Leite diz que o dependente deve evitar até pensamentos de que a
droga o deixa mais sociável ou de que o uso será mínimo. Deve aprender ainda que uma
recaída não é uso contínuo:
- Dependendo do tipo de pensamento que o paciente tiver, ele terá uma recaída
circunstancial ou não. Pensamentos do tipo "já que usei uma linha, esta recaída
mostra que sou fraco e não adianta me tratar" facilitam a manutenção do consumo.
O livro "Cocaína e crack", com artigos de mais de 20 especialistas em dependência química, é uma viagem completa desde a história da droga e os seus efeitos no organismo às recentes descobertas terapêuticas. Os médicos constatam a gravidade do problema, mas garantem, por experiência clínica, que a busca do "corpo limpo" de drogas é difícil, mas, com paciência e persistência, é possível.